O MEDO DA CRÍTICA

Este é um assunto da máxima importância não apenas pelo lado psíquico, mas também pelas relações sociais que o tema envolve. É quase um total consenso à dificuldade absoluta de qualquer pessoa tolerar ou aceitar uma determinada crítica. A mesma é vista como um ataque direto a tudo aquilo que a pessoa adquiriu por um longo tempo e com uma dose muito grande de sacrifício e renúncia. O sujeito se sente desnudado, essa é a palavra precisa que define a questão. Muitos se esquecem que tudo o que fizeram na maioria das vezes estavam desacompanhados, sendo iminente mais cedo ou tarde o crivo do outro. A crítica pode tanto reforçar a fé própria do sujeito em seu potencial, como exacerbar uma convicção irreal ou totalitária, ou tirar completamente a auto-estima. Esta é sem dúvida a dicotomia máxima no assunto. Até se atingir o ponto genial de uma crítica opinativa atravessamos todo o tormento e mal estar de nos sentirmos humilhados e traídos. Este é o preço a ser pago para conseguirmos desobstruir nossa limitada percepção. Todos enfocam a distinção entre crítica positiva e negativa, se esquecendo que o aspecto mais importante é dizer algo para alguém com real chance de mudança, e a grande tarefa é aferir profundamente quando isso é possível. Criticar é sem dúvida alguma um dos mais puros atos de amor e compaixão, na medida que mostramos ao outro a possibilidade não apenas de um novo caminho, mas que a pessoa talvez tenha se martirizado a vida toda por um propósito ínfimo. Criticar deveria ser visto como mostrar a coisa mais séria num relacionamento ou comportamento humano.

O ponto principal da crítica é estimular a reação do outro, mostrar que a contrariedade ou raiva pode ser usada para um propósito positivo, lançando o indivíduo numa espécie de solidão introspectiva, reflexiva e criativa. A coisa destrutiva na crítica é quando a mesma apenas reflete um instrumental de manipulação do poder, rebaixando pura e simplesmente todo o acervo do outro, sendo apenas uma arma de competição, isto seria por definição o que se chama de crítica destrutiva. Na verdade, o grande medo das pessoas em relação à crítica é de que a mesma revele a parte de miserabilidade pessoal que tanto teimaram em esconder. A crítica pode se transformar num instrumento da máxima traição justamente quando não é proferida, deixando alguém cego quanto aos vícios e erros de conduta. Não criticar é a mais pura manifestação de abandono e desamparo. Alguns não aceitam críticas de pessoas desconhecidas, outros ao contrário não a toleram quando parte de seu núcleo mais íntimo. Em ambos os casos a tônica é o mais profundo complexo de inferioridade; no primeiro vigora a timidez e receio de estranhos, no segundo a dor da rejeição ou disputa para o reconhecimento no âmbito familiar ou conjugal. A crítica em muitos casos é uma espécie de espelho ou reflexo de uma parte negativa da pessoa que necessita ser vivenciada constantemente, quase que uma obrigatoriedade de “ficar mal”; poderia ser classificada de uma neurose obsessiva de autopunição, sendo o outro um mero artifício para tal finalidade. Se alguém discorda é só pensar nos inúmeros exemplos de coisas absolutamente superficiais que roubam o humor do indivíduo.

É interessante a diferença de como homens e mulheres reagem perante críticas. Ao contrário do folclore popular, o homem é muito mais suscetível perante um comentário acerca de sua vaidade, quer seja seu receio em relação ao tamanho do pênis, ou qualquer coisa que coloca em risco seu gozo perante a masculinidade; diria que hoje em dia o quanto conquistou o sucesso econômico ainda é o ponto central. Na mulher o medo é em relação às suas funções maternas, ou o quanto pode ser realmente gostada e amada. A mulher aguarda a dedicação plena do homem para que possa acreditar em sua autoestima. Sua independência econômica é uma farsa quando transportada para outro âmbito. Reclama cuidado e atenção redobrada, enquanto luta para provar seu valor. Não sabe mais qual a prioridade em sua vida.

O sofrimento quase que perpétuo da crítica é quando se desperta uma competição que se sente perdida, ou com grande dose de atraso na comparação com alguém. A crítica mede o ritmo, conteúdo, superfície e aceitação, por tudo isso é que é tão temida. Se pensarmos nas relações de trabalho no modelo econômico atual, toda crítica se transforma na mais pura paranóia e medo da exclusão social. Não é por acaso que o ambiente de trabalho provoca um dos maiores focos do chamado stress. Conseguir um trabalho por si só já é difícil, imagine então lidar com sua competência pessoal a todo instante num ambiente hostil, onde se projeta quase sempre o mais puro ódio e inveja; esta última na maioria das vezes é o subproduto mais fiel da crítica. Podemos perguntar se alguém que desde a tenra infância foi reforçado positivamente ou gostado, tolera melhor a crítica? De certa forma sim, pois desenvolveu um tipo de imunidade perante a contrariedade.

A veia mais vívida do amor dos pais é ensinar ao filho sua total importância no mundo apesar do percalço causado por algo ou alguém. Os pais modernos se tornaram ridículos nessa questão, pois além de esquecê-la constantemente, priorizam o abafamento da crítica contra seus filhos estimulando apenas a competição a qualquer custo. Ensinar a absorver e processar determinado atrito ou conflito é muito mais amoroso e evolutivo do que qualquer tipo de vingança ou revide. Mesmo que seu filho supere outro na força ou qualquer tipo de habilidade, tal fato sempre resultará num conflito, seja a ansiedade constante de se por a prova, ou a culpa que advém da explosão emocional. Está na hora dos pais deixarem o consumismo de lado e tentarem educar um pouco a alma de seus filhos.

Cirurgias de estômago, academias, plásticas, há toda uma propaganda atual visando à maximização da saúde, quando na verdade tudo isso serve ao simples propósito da fuga perante a crítica; Chegar num patamar econômico, social e estético onde não seja atingido, este é o propósito mais realista do homem comum e alienado em nossa sociedade consumista. Representar papéis é apenas o que importa, sendo que não há nenhum tipo de treino para que uma pessoa perceba quais são suas características mais profundas, e as conseqüências disso em seu meio circundante. Por que será amada ou odiada ficará a critério do mais puro acaso. Não precisamos nem lembrar do sofrimento futuro que tal coisa irá acarretar. Busca-se fama, poder e sucesso como instrumentos que afastarão eternamente o sujeito do julgamento negativo alheio, sendo uma absoluta ilusão perante os desafios que a vida impõe.

Um outro núcleo do medo da crítica é uma somatória histórica de carência na pessoa, sendo que tal condição psíquica nunca foi muito dissecada pela psicologia. A carência via de regra é confundida com a solidão, o que é um enorme erro, pois há pessoas extremamente solitárias com uma boa dose de autoestima. A carência é a ausência do toque no “eu mais profundo”, sendo aquela pessoa que não se conhece de forma alguma, que se torna mera reprodutora das idiossincrasias culturais vigentes; é o sujeito indolente quanto ao despertar de seu potencial e criatividade, ficando sempre na espera que o outro o guie, abafando sua ansiedade e angústia existencial. O solitário é aquele que não consegue de certa forma dividir seja seu aspecto positivo ou negativo, o carente pode até fazê-lo, mas é insaciável e insatisfeito consigo próprio, talvez seja um dos representantes máximos do que poderíamos chamar de infelicidade.

O fato é que nosso esquema econômico e social a cada dia cria uma tensão maior do ponto de vista individual e pessoal, sendo que o medo da crítica vai aumentando numa proporção estratosférica. Notem que a hipocrisia ganha terreno em todas as relações, e a sinceridade ou a opinião criativa é vista como sinônimo de agressividade. Todos sabem de tal fato absurdo, mas a grande maioria continua se omitindo, com a desculpa mais do que infeliz de “evitar problemas”, ou o medo do ostracismo. Fingir papéis é o instrumento que conduzirá sem sombra de dúvida à depressão e vazio interior, talvez seja o preço que deva ser pago por todos aqueles que fazem poupança com o seu verdadeiro eu. Tornar-se incapaz de assimilar ou reagir de forma madura é sinal de infantilidade e desespero. Vivemos a epidemia social de que a crítica é sinônima absoluta de agressão, angústia ou quebra da relação. Na verdade todos foram muito mimados. Uso esse termo dentro da perspectiva do psicólogo ALFRED ADLER, que dizia que o mesmo não é aquele que foi brindado com todo o tipo de regalias econômicas, mas tão somente diz da personalidade que a todo custo luta por uma hegemonia perante seus semelhantes. O mimado espera que todos lhe proporcionem destaque, sejam familiares ou estranhos. Ao mimado só interessa ser o número um, não importando interagir, mas apenas chamar a atenção para si mesmo. Quando descobre que o meio não cederá às suas pressões igual à família o fez, se torna retraído e tímido.

A superação do medo nunca é possível, pois a sociedade investe no mesmo, sendo o núcleo de vários processos sociais: consumo, aparência e destaque econômico. O medo apesar da queixa de todos reinará absoluto enquanto determinados processos não forem conscientizados e assimilados: imitação, comparação, inferioridade e inveja. A crítica se insere em todos eles. Se refletirmos profundamente, uma das coisas mais inúteis é a lamentação da perda perante algo que historicamente jamais investimos. A crítica muitas vezes desvenda tal segredo que teimamos em guardar. Perante tal circunstância só há dois caminhos possíveis: inserir o recurso emocional num projeto maduro e próspero, tanto individual como em conjunto, ou então a depressão, que nada mais é do que uma espécie de “profissão moderna”, que tem como objetivo expandir o papel de vítima para todo o meio do indivíduo, e a concomitante necessidade de remédios para sufocar o confronto com si mesmo.

Mas até agora tenho discorrido sobre a função e o impacto da crítica no sentido da contrariedade; e o que dizer do reverso, ou seja, da aversão e vergonha de alguém perante uma crítica positiva ou elogio? Sem dúvida tal evento a princípio nos causa consternação e indignação, pois numa sociedade tão hipócrita e que fomenta a bajulação, como pode uma pessoa não gostar do reforço positivo? Extraindo o incômodo de alguém por um elogio superficial cabe investigarmos o que acontece nesses casos. A pessoa que não tolera uma crítica positiva ou elogio sincero é acometida de um processo de sabotagem pessoal, sendo que a tônica é omitir não apenas sua potencialidade, mas também sua capacidade de troca no plano positivo. Não se trata do simplório conceito do medo da satisfação, mas a insistente necessidade de vivenciar e repetir experiências catastróficas reais ou imaginárias. Quando se reconhece determinada capacidade de um ser humano, automaticamente se cria uma responsabilidade para a pessoa beneficiária de tal condição, sendo que a mesma quer fugir de dita condição, não necessariamente por uma indolência de sua alma, mas principalmente pelo mais profundo pânico de não corresponder perante a nova função delegada. A mediocridade é o seguro eterno contra o medo de errar e ousar, sendo a neurose a conseqüência da escolha no patamar sempre anterior ao desenvolvimento da pessoa. A essência de todo esse processo é um clamor pessoal, um diálogo do sujeito com seu mais profundo íntimo que implora a seguinte condição: “por favor, me afaste de minha competência e recurso próprio; me mantenha em minha posição de dependência e desequilíbrio”.

O problema dos conceitos globais na psicologia é exatamente o que falei acima, quem disse que todos são presos do Édipo ou também almejam o poder? A questão básica é a impossibilidade para o prazer pessoal. Pessoas com medo da crítica possuem a doce ilusão que tudo sempre se resolverá na diplomacia, que a injustiça cometida ou sentida será revertida; a espera do perdão ou reparo do outro, isto é o mais absoluto exemplo de desperdício de vida. O crescimento advém justamente quando abandonamos qualquer expectativa ou ilusão. Outra definição social da neurose é a esperança constante da mudança da atitude ou conceito de alguém em relação às nossas expectativas ou anseios; sendo uma construção metafórica e irreal de que temos bastante “tempo”, apesar de nossa sentença biológica inexorável. O surrealismo da imortalidade no confronto com a contradição da história pessoal de todas as perdas e decepções, enfim a mais abstrata e ilusionista idéia possível. Não se trata de se tornar insensível, mas que não abandonemos algo importante apenas porque fomos frustrados. A traição externa abre o portal para que façamos a mesma coisa conosco no nível psicológico. Como no fundo são frágeis nossas convicções e crenças, embora gostemos de alardear o contrário.

KARL MARX enfatizou o conceito da “mais valia”, que seria o aumento da produtividade através de mais horas trabalhadas pelo empregado sem a concomitante remuneração; uma expropriação do direito de alguém para favorecer o lucro e retenção do outro. Não pretendo neste estudo adentrar conceitos ideológicos, mas apenas dizer que o grande erro da visão marxista foi justamente sua aplicação no plano econômico, como se a descoberta da injustiça praticada pelo capital, não estivesse também enraizada na classe trabalhadora, só esperando o momento revolucionário de assumir a condição de exploradora. Ninguém na face da terra até hoje conseguiu eliminar a luta de classes, e isso é bastante óbvio. O que quero dizer é que o conceito marxista é totalmente aplicável no âmbito psíquico. A mais valia citada ocorre em nosso inconsciente, quando não conseguimos gastar ou trocar nosso lado afetivo ou o prazer propriamente dito. A retenção ou economia dos afetos é a queixa mais comum que ouço dos diversos casais analisados; existe o potencial, mas parece que há uma eterna espera da prática, e o que se vê é uma total expropriação da felicidade e satisfação em prol do conflito e tortura no convívio diário.

O inconsciente assume a função da elite exploradora quando o ego se enche de medo e receio perante si mesmo e os outros. Como todos sabem, nosso pior inimigo jaz nas profundezas de nossa mente e alma, tomando a forma diabólica de uma energia que sempre nos derruba. É impressionante como alguém que se submete a uma psicoterapia profunda descobre as sabotagens que efetuou no decorrer de sua vida. O inconsciente assume a função da punição perante uma personalidade retraída ou temerosa da criatividade e potencialidade. Não há tolerância com alguém que resiste a vivenciar a plenitude de sua capacidade, em função de uma idéia fictícia de economia para tentar ganhar tempo ou uma pseudo-imortalidade, em função do medo de “gastar tudo”, caso se proponha ao compromisso profundo. O fato é que a vida que temos levado não nos deixa quase que nenhum tempo para todas as considerações efetuadas neste estudo, e esse é o fator mais que preocupante. A própria psicoterapia não deveria ser encarada como uma ferramenta emergencial para abafar a angústia de alguma dor, mas pura e simplesmente um complemento de um processo de reflexão e introspecção diária, pois do contrário essa arte do autoconhecimento se torna tão somente uma ferramenta do desespero.

Antônio Carlos Alves de Araújo – Psicólogo

BIBLIOGRAFIA:

ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.

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ALÉM TÚMULO

“E, se não há ressurreição de mortos, também o Cristo não ressuscitou.” – Paulo. (I Coríntios, 15:13.)

Teólogos eminentes, tentando harmonizar interesses temporais e espirituais, obscureceram o problema da morte, impondo sombrias perspectivas à simples solução que lhe é própria.

Muitos deles situaram as almas em determinadas zonas de punição ou de expurgo, como se fossem absolutos senhores dos elementos indispensáveis à análise definitiva.

Declararam outros que, no instante da grande transição, submerge-se o homem num sono indefinível até o dia derradeiro consagrado ao Juízo Final.

Hoje, no entanto, reconhece a inteligência humana que a lógica evolveu com todas as possibilidades de observação e raciocínio.

Ressurreição é vida infinita. Vida é trabalho, júbilo e criação na eternidade.

Como qualificar a pretensão daqueles que designam vizinhos e conhecidos para o inferno ilimitado no tempo? como acreditar permaneçam adormecidos milhões de criaturas, aguardando o minuto decisivo de julgamento, quando o próprio Jesus se afirma em atividade incessante?

Os argumentos teológicos são respeitáveis; no entanto, não deveremos desprezar a simplicidade da lógica humana.

Comentando o assunto, portas adentro do esforço cristão, somos compelidos a reconhecer que os negadores do processo evolutivo do homem espiritual, depois do sepulcro, definem-se contra o próprio Evangelho.

O Mestre dos Mestres ressuscitou em trabalho edificante.

Quem, desse modo, atravessará o portal da morte para cair em ociosidade incompreensível?

Somos almas, em função de aperfeiçoamento, e, além do túmulo encontramos a continuação do esforço e da vida.

Emmanuel

CARÊNCIA(ANÁLISE PSICOLÓGICA)

A carência é a convicção interna do percebimento de que ninguém é capaz de preencher nossa fenda afetiva. Há muito tempo à mesma deixou de ser sinônimo de solidão, pois é sentida em todas as esferas do relacionamento: casamento, namoro e família. A carência é o teste supremo de que nunca teremos controle sobre nossas reais necessidades pessoais, estando à mercê dos valores impostos pelo social: beleza, sedução e segurança como exemplos. A pessoa carente exacerba sua percepção social de que realmente quase nenhuma pessoa se importa com os sentimentos do outro, sendo que tal idéia se transforma em um conflito torturante, pelo fato da desconfiança de que isto esteja acontecendo no cotidiano do indivíduo.

Perdemos totalmente o poder pessoal face às pressões externas e internas que atingem nossos valores mais íntimos, nos tornando dependentes de qualquer tipo de relacionamento, seja positivo ou negativo. A dependência é sinônima absoluta da carência. Esta sempre será um reflexo interno e psíquico do estar preso na opinião alheia, e como outras pessoas devastam a auto estima da pessoa quando proferem determinadas críticas. A carência real é aquilo que sabemos que nos falta; ao contrário de tentar mostrar desesperadamente para o mundo que necessitamos de sua aprovação; não está associada à mágoa, mas, se assemelha muito mais a tristeza, que é uma emoção mais do que confiável perante um determinado esforço pessoal que não produziu o resultado almejado até o presente momento de nossas vidas. Esperança é a tristeza transformada em crença pessoal sobre o potencial de determinado indivíduo.

Será realmente que desejamos lidar com a carência ou apenas derramar toda a miserabilidade afetiva? A questão do choro se insere em tal contexto; pois há muito venho observando na experiência clínica que o mesmo muitas vezes possui um caráter autoritário, fazendo com que o parceiro esteja à disposição total da pessoa para aplacar seu sofrimento; ou ainda reflete o referencial de que a pessoa não deseja abrir mão da posse que acha que lhe foi conferida e jamais pode ser confiscada. O carente ou deprimido não se importam com a vergonha social de demonstrar seu sofrimento; sendo que tal fato não constitui algo positivo ou negativo; mas o que vale é unicamente reviver a todo custo um passado no qual não se conforma de ter sido excluído. É impressionante que após mais de cem anos da psicologia, pouco ainda se fala dos recursos dissimulados para a obtenção de poder e atenção. A auto flagelação e auto comiseração são os mais atuais na manutenção de dito estado neurótico. A carência como disse, sempre é um sentimento verdadeiro de um estado de desamparo, sendo que o problema reside na obsessão ou exacerbação do mesmo, ou quando a pessoa acha que tal condição é infindável.

O carente muitas vezes adota sua postura como se fosse uma espécie de “profissão”, eliminando sua possibilidade pessoal de desvinculação das antigas imagens neuróticas. Sua dependência reside no retorno da infantilização emocional, mesmo que tais vivências tragam imensa dor psicológica. Mas como é possível a continuidade de tal sofrimento, seria um traço masoquista de personalidade? Creio que não, o que acontece nesses casos é que alguém que foi atacado em sua auto imagem ou amor próprio desenvolve um dispositivo mental de servidão perante a figura agressora, com a finalidade inconsciente de estar ao seu lado até que a reparação seja efetuada. É um clamor híbrido de vingança e justiça que transcende o tempo, se fixando no acontecimento passado em detrimento de formas atuais de compensação para sua carência. O carente guarda uma memória emocional extremamente elevada, pois sente que sua rebelião não se deu no ponto devido, guardando para si uma tarefa que parece interminável: a cura de sua ferida perante uma pessoa que deteve e ainda detêm poder sobre seus afetos. A carência abre brechas para vários processos neuróticos que a pessoa acaba por desenvolver. Assim como espera a reparação sublinhada acima, adota uma série de comportamentos fragilizados (choro, angústia e medo p.ex,) no sentido do meio ao seu redor perceber sua existência, mesmo que a pessoa seja vista negativamente ou que isto traga imensa dor ao ego. O carente teve um treino onde seu narcisismo pessoal foi totalmente invertido, se tornando uma auto crítica incessante.

A carência coloca a questão primordial se realmente alguém luta por um sonho concreto, ou apenas deseja vivenciar uma dor perante o que sente que lhe retiraram. O desafio é se gosta do presente, ou está totalmente preso numa caixa de lembranças negativas. Passado e futuro se transformam no palco de uma dor psíquica que a pessoa já não consegue conter.

Todo sentimento ou prazer cobram seu preço ou manutenção; sendo que os aspectos econômicos e sociais se transferem para a afetividade. O capitalismo também impera nas emoções, e poucos se deram conta de tal fato, preferindo acreditar ingenuamente num romantismo que nunca existiu. A liberação de determinada pulsão (energia contida que requer a descarga) de prazer irá cobrar o preço da dependência, já que o ser humano desde a idade média permeia suas relações na base da troca monetária. O interesse há muito habita nosso mais profundo íntimo, e só alguém totalmente alienado passa desapercebido perante tal fato. É lógico concluirmos que a carência irá se desenvolver numa determinada pessoa que não aceita a perda do controle e poder perante determinada situação. O que devemos refletir é como anda nosso potencial de troca, e percebermos que há uma junção entre carência e apego, sendo que este último tem a finalidade de se deter apenas no déficit atual da afetividade. Mas quase ninguém reflete sobre as conseqüências de determinada perda; o que realmente acontece? Será a noção de que jamais conseguiremos determinado prazer que experimentamos? O soterramento absoluto de nossa frágil auto imagem? O inconformismo perante nosso desejo de posse que se esvaeceu por completo perante a realidade? Desejo não admitido de mais uma “chance”, mesmo se sabendo que determinada relação é absolutamente aflitiva? Qualquer perda possui o padrão mental de uma compulsão ou vício, sendo que faz parte da natureza humana lutar para a continuidade de algo conhecido, mesmo que isto custe sua própria vida ou insatisfação crônica.

O sistema econômico cria a noção da carência ou insuficiência eterna, jogando as pessoas numa espiral doentia de consumo. Tudo nos diz que nossa emoção profunda é um quadro perpétuo oco pendurado na parede de nossa consciência que está sempre em conflito. Um lado positivo da carência que quase todos infelizmente não conseguem enxergar é a capacidade ou desejo da recuperação do padrão ou equilíbrio emocional. O problema é a concentração apenas na descarga, como foi observado anteriormente. A recuperação ou aprender a obter poder e compensação por determinada inferioridade incluindo a perda é uma das essências da vida. A carência só irá se impor por completa quando o medo da morte que é seu aspecto mais profundo dominar os mais recônditos cantos do inconsciente do indivíduo. A saída é o percebimento de que todo sofrimento possui uma utilidade prática na vida do indivíduo.

A carência é a recusa interna de que talvez estejamos sós e abandonados; ou ainda a descoberta de que o amor de outra pessoa ainda não nos brindou. A questão é que a mente coloca tal coisa como algo que irá perdurar até o fim da vida da pessoa. Desde as descobertas de FREUD, o ser humano teve que perder sua racionalidade e assumir que jamais terá o controle sobre seus aspectos inconscientes. Mesmo com todas as novas descobertas na ciência, não temos ainda nenhuma chance de poder sobre o nosso destino. O máximo que conseguimos é observar como o inconsciente se agrega a determinados eventos ou acontecimentos, para dar continuidade a experiência traumática como dizia FREUD. Repetir determinados relacionamentos ou situações é tarefa básica do inconsciente. O problema é que neste ponto a psicanálise caiu num dilema; pois achava que se concentrar no passado do indivíduo seria a chave para remover o núcleo neurótico.

ALFRED ADLER, primeiro discípulo de FREUD e também o primeiro a desafiar suas teses, pensava o contrário; que o inconsciente seria a chave para o mapeamento das experiências futuras; como exemplo, acreditava que a escolha profissional se dava lá pelos cinco anos de idade, devido ao peso emocional vivido pela criança por situações que não entendeu e mais tarde desejaria atuar novamente. Seu trabalho se fixava na atualidade do indivíduo, tentando coibir as neuroses de atrapalharem o espírito coletivo e de solidariedade humana, fazendo com que o paciente abri-se mão de sua “vingança” perante sua história de vida; isto seria se concentrar no presente e futuro. Perceber que emoção historicamente se agrega no inconsciente da pessoa seria a tarefa do terapeuta. Se for a submissão, certamente a tendência será a repetição. Caso seja a raiva ou ódio, a pessoa tentará viver o oposto. Como exemplo clínico, cito pessoas que eram totalmente apegadas em seus relacionamentos, que após a separação e devido ao inconformismo fazem questão que nos seus próximos contatos afetivos seja o parceiro que esteja na postura da dependência. É da natureza humana lutar pelo poder em todas as situações, principalmente nas que refletem o medo ou raiva como expoentes máximos.

Para elucidarmos o inconsciente como a chave de nosso destino pessoal, faz-se mister o mapeamento mais do que detalhado das emoções e sentimentos diários vividos pela pessoa, pois desta forma teremos pelo menos uma pista de como será sua vida no confronto com os desafios da atualidade. O ponto fundamental é não apenas se debater na falta, mas, descobrir verdadeiramente o núcleo de nossos sonhos e anseios, e averiguar com total franqueza se os mesmos são passíveis de serem efetuados, e se também a mentira não está presente em algo que pensamos que desejamos.

Nossa meta atual que ruminamos diariamente é o fato de ganharmos dinheiro. Sem sombra de dúvida necessitamos do mesmo para atender nossas necessidades vitais. O complicador é quando as necessidades de consumo se agregam às questões afetivas, no sentido de compensar uma falta ou carência. Nenhum carro, casa ou produto pode ter tal função, já que o inconsciente não aceita permutas para suas solicitações. Deter-se no consumismo é apenas uma fuga narcisista para ser invejado ou obter poder sobre alguém, em face da infelicidade pessoal generalizada. E como é extremamente dilacerante percebermos o quanto somos e estamos infelizes. O dinheiro apenas abafa nossa total carência que não conseguimos resolver. A amplitude do desejo de retenção monetária reflete também um seguro cultivado diariamente contra algo extremamente valioso emocionalmente que a pessoa deixou escapar. O “rico” é aquele que sabe ou já passou pela horrenda experiência da privação, sendo que o acúmulo é a defesa mais racional para evitar a repetição de tão amarga vivência. Afetivamente em nossa era o processo é similar, pois a troca de amor para a maioria pode implicar em mágoa ou perda, assim sendo, todos acabam se tornando avarentos por precaução.

O consumismo é apenas um disfarce, para não se assumir que lidamos da mesma forma com as pessoas como o fazemos com o dinheiro. Ora subtraímos todo o afeto ou respeito para com o outro por puro egoísmo; ou então exageramos na doação ou ciúmes quando estamos prestes a perder determinado convívio. O fato é que somos péssimos investidores quando temos alguém ao nosso lado; e a solidão é a agonia por não poder se investir a dois, se sabendo possuidor de algo desprovido de sentido na posse individual. Carência é a revelação daquilo que a pessoa realmente é, trazendo à tona tanto o lado que reclama ternura que o parceiro ou alguém podem completar, quanto a malignidade inerente ao ser humano, quando acuado por uma situação de falta ou preso à determinada condição que o outro desconhece. A carência visa a eliminação de qualquer tipo de segredo e manutenção do orgulho, para que ocorra algo sério, que quase nunca observamos no cotidiano. Como lidamos com nossos parceiros é a chave de tal questão; (posse, inveja, superioridade, dentre outros.) Insistindo ainda no debate social, o consumo cria paralelamente o temor à dívida; assim sendo, é preferível a carência do que pagar um tributo pessoal perante determinada pessoa que possa nos reconfortar. Não seria essa uma das causas atuais da falência dos relacionamentos? Alguma pessoa pode se lembrar no decorrer de sua história pessoal, de algum tipo de aviso ou treinamento que obteve para conseguir compartilhar determinada emoção ou afetividade? Afora o discurso básico de uma mãe ou pai sobre a necessidade de dividir com um irmão determinado brinquedo ou tarefa, será que podemos nos lembrar da última vez que fomos alertados de que determinada situação ou desejo pessoal poderia nos conduzir ao isolamento?

O verdadeiro aspecto do amor ou troca é a contínua experiência do diálogo perante o prazer e insatisfação. Temos de aprender que uma imagem tênue de algo prazeroso jamais pode ser um referencial eterno perante o que buscamos. A memória traz os fatos, e cabe os classificarmos perante o grau de importância em determinada etapa de nossas vidas. A sedução é mais ou menos o colocado; imprimir o selo de uma lembrança eterna, que muitas vezes não tem nada a ver com as reais necessidades da pessoa; o mesmo caso que o sistema econômico nos coloca diariamente. A sedução como é posta pela sociedade é a oportunidade de se mostrar todo o poder pessoal perante alguém carenciado. A disputa e inveja se tornam então a base da nova procura pessoal. Sedução deveria ser a responsabilidade sensual a alguém que merece nosso mais profundo afeto.

A carência também é um atraso na conscientização do que realmente nosso íntimo está buscando; sendo que tal hiato é quase que completamente preenchido pelo medo. Quando o mesmo invade a personalidade, qualquer outro processo se torna secundário ou seu escravo. O medo utiliza vários processos emocionais para sua subsistência. A carência talvez seja sua base mais segura, na crença neurótica de que a infelicidade irá perdurar. Carência no resumo de tudo que foi colocado é o temor constante de perder novamente. De certa forma, todos já foram traumatizados no decorrer de sua história de vida. Mas por que não conseguimos obter experiência positiva perante passagens dolorosas? Por que a fragilidade ousa imperar absoluta, quando necessitamos de auto estima, parcimônia e tranqüilidade? O vírus destruidor de todo o equilíbrio emocional que deveríamos cultivar é a descoberta dolorosa de que determinada pessoa nos escolheu para doar ou viver o pior de si própria. Não consigo visualizar um registro de uma situação de “traição” mais horrenda do que a colocada.

Em outros trabalhos sempre pontuei que um relacionamento começa não apenas com elementos de prazer ou atração sexual; sendo que é investido de necessidades inconscientes ou estímulos negativos que a pessoa não conseguiu lidar até o presente momento. Uma relação é uma espécie de “contrato” sigiloso entre ambas as partes acerca de conteúdos reprimidos da personalidade que anseiam vir à tona. O parceiro se torna o alvo necessário para a consecução de uma tarefa mental que há muito habita o íntimo de seu par. Infelizmente na maioria das vezes, tais conteúdos são de natureza oposta aos anseios e expectativas da outra pessoa, começando todo o drama conjugal. Passa desapercebido que quase ninguém deseja a responsabilidade ou carga perante o depósito afetivo do outro. O pavor mais do que justificado da solidão mascara a necessidade imperiosa de afastar alguém que adquiriu como meta básica contrariar nossos desejos. Não almejo concluir com desesperança no âmbito afetivo, apenas apontar as diversas armadilhas criadas numa junção de carências pessoais versus necessidades artificiais induzidas pelo consumismo e opinião alheia. Claro é o fato de que a solidão é o fardo mais assombroso de nossa era, porém, a busca verdadeira por uma qualidade da relação também deveria ser meta básica. O problema é que quase não há mais comoção e entusiasmo perante o talento e capacidade de alguém para se dedicar plenamente a uma pessoa. A inveja há muito tempo atua contra o potencial da continuidade e bem estar das relações.

O desafio constante passa por conseguir realmente conhecer o outro; perceber não apenas seu histórico, mas, como lida nas diferentes áreas da vida; em que momentos ou situações é alguém simples, ou em quais é terrivelmente avarento e ambicioso. O carente se cega perante a verdadeira natureza de outra pessoa, devido a sua precária condição emocional; não consegue investir na sua pessoa e também em situações que poderiam lhe trazer amplo crescimento pessoal. Sua postura se assemelha a alguém em situação de privação social e econômica, nutrindo o conceito de que determinado bem é quase que inatingível para si próprio.

A carência não deixa de ser uma das únicas oportunidades de nos revelarmos sem máscaras; devemos apenas tomar o cuidado de repetidamente mostrarmos nossa essência, já que a sociedade fará uma leitura de “fraqueza”, e conseqüentemente iremos nutrir um terrível complexo de inferioridade. Não se trata aqui de apregoar algum tipo de falsidade, sendo que o intuito é a mera preservação da estima do sujeito. O grande problema é que fica a impressão de jamais termos a certeza se realmente somos “bons” ou capazes em determinada área de nossas vidas. Dada esta dúvida, todos saem correndo atrás de fama, dinheiro ou poder, a fim de abafarem o desastre do fracasso pessoal, que é conseqüência na maioria das vezes do medo da opinião alheia e das expectativas que achamos que os outros têm a nosso respeito. A educação do valor próprio é pervertida diariamente por um narcisismo egoísta e individualista, dado que os pais cobram incessantemente dos seus filhos sucesso e destaque, assim como a sociedade o faz. Nesta corrida mais do que neurótica, o que se esquece é o acompanhamento genuíno das reais necessidades e possibilidades da criança. Temos de admitir que até nos mais puros instintos de cuidado e proteção, o lado econômico perverteu a nossa capacidade de sermos pais.

Qualquer ser humano já vivenciou o medo do desamparo ou a temível sensação da perda da proteção perante a morte ou ausência de seus genitores. Se vamos conseguir sobreviver a uma sociedade mais do que hostil e competitiva, ou se ainda, nos darão alguma posição para podermos sobreviver, fazem parte dos nossos mais profundos temores e pesadelos. A questão é que o carente vivencia tais medos na parte emocional, e o que é pior, quase que diariamente. Não é apenas uma questão de insegurança crônica; sendo que se abre uma espécie de portal para outros sentimentos paralelos que irão povoar indefinidamente o inconsciente da pessoa: ciúmes, inveja, medo e principalmente a ansiedade. A função da psicoterapia não deve ser a de aplacar a angústia, ou colocar o paciente em determinado conformismo. A solução só pode ser o que ADLER chamava de um “primeiro combate entre duas pessoas”, para que à parte mais fragilizada aprenda a recuperar sua potência, seja no ganho ou na perda, sendo que a função do psicólogo é espelhar um lado profundamente humano, dizendo que todo esse processo é valioso, e que o mesmo também sente prazer na recuperação do outro, já que o indivíduo despotencializado jamais acreditará que poder ser alguém interessante. ADLER usava uma frase simples, mas penso que ainda de muita utilidade: “o teste supremo para ser terapeuta é a capacidade de animar a pessoa que busca ajuda”.

Antônio Carlos Alves de Araújo – Psicólogo


BIBLIOGRAFIA:

ADLER,ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. MADRID: PAIDÓS, 1932. FREUD,SIGMUND. O FUTURO É UMA ILUSÃO. OBRAS COMPLETAS.

ANÁLISE SOBRE O MEDO E AS FOBIAS

Se excluirmos a questão sobre o dinheiro e trabalho, parece que nossa mente apenas vive focalizando dois pólos opostos: seja na fantasia e devaneio de uma satisfação qualquer; ou no mais completo pensamento de medo. O objetivo deste estudo é a formulação de um teste psicológico prático para a aferição do grau de medo presente na personalidade do sujeito; devendo ser aprofundado entre o psicólogo e paciente durante a psicoterapia. A primeira questão seria:

* Quantos pensamentos de medo e fantasia têm aproximadamente durante o dia? Quais são os mesmos e sua temática central? A fantasia embora tenha a função de entretenimento, não deixa de ser um pesado fardo por revelar toda a carência da pessoa. As imagens mentais do medo não são necessariamente o vício sobre determinada antecipação de algo catastrófico, mas assim como a fantasia reforça o tédio e amargura perante o distanciamento daquilo que elegemos como sonho. O preenchimento de uma ausência quase sempre se completa com a mais pura agonia ou caos psíquico. Pensemos em certas fobias do tipo: verificar várias vezes se a porta está fechada ou a chave do gás. O significado inconsciente de tal conduta não é apenas o medo do acidente ou um dever e obrigação imposta pela mente. Sua raiz remete a uma disciplina internalizada que visa a fuga a qualquer custo da crítica ou rejeição. A mente de uma forma constante almeja o distanciamento de um passado ou uma situação que foi humilhante para a pessoa; desenvolvendo um trabalho extra como compensação e defesa contra novos ataques. A psicanálise no decorrer da história imputou conteúdos sexualizados para quase todo o tipo de fobia. Torna-se um tanto hilário se pensarmos no medo de dirigir como protagonista de algum conflito de ordem sexual; pode até ser que exista de alguma maneira, mas temos de tomar cuidado para não perdermos o foco da situação.

A estrutura social nos coloca não apenas o dilema da sobrevivência econômica, mas qual valor temos perante os outros. O cerne de várias fobias passa pela questão do poder do sujeito perante o meio e como o manipula. No caso citado do medo de dirigir, quase sempre encontramos uma pessoa que historicamente apresentou grandes dificuldades com a crítica e agressividade. O medo de ser atacada e lhe tomarem seu espaço ou ego pessoal é transportado para a esfera do dirigir onde todos esses elementos são testados incessantemente. A segunda questão seria:

* Em que época da vida lembra que começaram a se desenvolver tais pensamentos onde o núcleo é o medo? Confia plenamente que os traumas vividos representam fielmente sua condição atual? Gostaria apenas de fazer um parêntese sobre o que está sendo desenvolvido neste estudo. É óbvio que ninguém jamais conseguirá viver sem o medo ou se abster de sonhar ou desejar algo. Ambas as coisas são parte intrínseca da condição humana. O que cabe é a conscientização sobre nossa deficiência na obtenção da parte prática de viver bem. Sobre a questão acima levantada é interessante notar como quase todos têm um perfil traçado exatamente acerca da origem de sua insatisfação ou infelicidade, como se a mente respondesse de forma lógica aos desafios apresentados. A própria natureza do trauma ou conflito é a arte da dissimulação visando a manutenção constante de determinado estado afetivo. A cognição e pensamento do ser humano visam a constante repetição dos eventos, na esperança de poder os controlar algum dia. Nenhuma pessoa seria estúpida o suficiente para se acostumar ao sofrimento, mas o que a mesma não percebe são seus esforços internos para se deter em determinado hábito. Mas neste ponto já podemos formular a pergunta central do texto e que desafia a psicologia desde seu princípio:

* Por que tememos tão intensamente as mudanças?

Quando ocorre uma mudança no indivíduo para algo melhor ou mais produtivo, o primeiro desafio do mesmo é estar atento e saber lidar com a mais pura inveja. Esta traz temores inconscientes de toda ordem, não exatamente de perder o que foi conquistado, mas o terrível sentimento de culpa por estar em uma situação diferenciada. Podemos afirmar que tanto os elementos construtivos ou destrutivos do ser humano sempre irão permanecer intactos no substrato inconsciente. Se o esquema econômico e social fez com que, por exemplo, a solidariedade se tornasse supérflua no rol da sobrevivência, a mesma irá se deslocar para outra esfera; na identificação e solidarização com a infelicidade absoluta do outro e obrigação de seguir o mesmo traçado. Todos sabemos da dificuldade e dor de ver o outro muito melhor do que nós mesmos, e quando alguém consegue destaque ou detém determinado potencial, fatalmente o travará perante esta torcida consciente e inconsciente da negatividade. Precisamos treinar muito para acreditarmos em nossa auto estima. JEAN PAUL SARTRE dizia que o “inferno é o outro”; tal afirmativa encerra um contra-senso; por um lado realmente o outro é o inferno no tocante a inveja perante algo que temos ou detemos; mas também sempre precisaremos de uma platéia, seja por nossos anseios narcisistas e agressivos, ou por um desejo genuíno de tentarmos nos integrar na coletividade. ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD e criador da psicologia social, achava que o senso de uma real comunidade, no sentido profundo de amparar o outro era a meta máxima do desenvolvimento emocional da pessoa. O ser humano não é nem bom ou mal por natureza, mas carrega todos os potencias de energias ou afetos que se cristalizarão em conformidade com o meio e subjetividade de quem reage ao mesmo.

· Outra pergunta fundamental é: Qual o receio ou medo de proporcionar prazer a alguém? Este é mais um dos dilemas de nossa era no tocante a relacionamentos. O pavor de dar o melhor de si e não obter retorno ou impacto sobre o outro permeia toda a esfera afetiva. O lacônico “ficar”, é o produto mais fiel desse processo. Na verdade o contraponto do consumismo é a total economia psíquica e sentimental de prover o que se possui de melhor para alguém.

· Sobre as fobias em si; qual sua origem? Como exemplos: medo de elevador ou lugares fechados, qual o significado? Um dos mais antigos e primeiros colaboradores de FREUD chamado OTTO RANK, elaborou uma teoria que denominou “trauma do nascimento”. A própria condição biológica de como a criança vinha ao mundo já era por si só um fator do mais puro stress. Se sentir confinado remeteria a esta antiga imagem mnêmica, seguindo tal postulado. Embora não possamos desprezar tal tese, creio que a mesma é correta, mas se encontra de certa forma invertida do ponto de vista psicológico. Não é bem a imagem do nascimento que se agrega ao medo, mas seu correlato, a morte. O medo do confinamento representa a emissão simbólica de flashes acerca do destino inevitável da humanidade; achando que o sufocamento é seu elemento central, obviamente por uma associação biopsíquica ao elemento ar; prova disto é o antigo medo de ser enterrado vivo. Mas não é apenas a questão do confinamento ou ausência do elemento vital do ar que dão a dimensão do medo que estamos analisando. Pensemos no medo do elevador; seria um tanto simplista o associar também a morte ou sufocamento. A psicanálise também sempre fez relação deste distúrbio novamente com a questão da sexualidade. Simbolicamente estar diante de outras pessoas representaria uma falha narcísica, como se seu “pênis” ou atributo pessoal estivesse sendo testado ou comparado. Notem que por mais surrealista que possa parecer tal interpretação, não deixa de ser uma relativa verdade; prova disso é a fantasia sexual de efetuar relações sexuais dentro do elevador, que seria uma reação a tal medo citado. O que ficou de fora nessa análise toda é o elemento social da questão. O medo do elevador denota também uma personalidade tímida e refratária ao contato social; ou uma grande dificuldade de se sentir natural perante estranhos. A fobia social é o embate final sobre a aferição de sua mais profunda intimidade em relação ao meio. ADLER brilhantemente classificou determinadas fobias como a “fuga da situação de prova”, e como a pessoa se recusava a fazer qualquer tipo de teste, sairia “vitoriosa” no plano mental simplesmente pela não participação.

· Como fica a síndrome do pânico dentro do que foi citado até agora?

Pensemos num dos sintomas da referida moléstia-o medo de sair na rua. Qualquer psicólogo um pouco experiente já percebeu fazendo um levantamento pregresso da história do sujeito, que antes da afecção acometer o mesmo, sua personalidade era exatamente oposta; mostrava coragem, espírito empreendedor, liderança acima de tudo. Porém, em determinado momento começou a ocorrer o processo inverso. Isto é o que ADLER denominava como “arranjo psíquico”, um protesto mental contra as tarefas ou responsabilidades que o sujeito não desejava mais carregar. O desejo de sair, encontrar pessoas e tudo o mais ainda persistiria, só que agora a perspectiva mudava radicalmente; a doença seria uma forma prática de forçar o ambiente a lhe proporcionar todas as suas necessidades de modo que desaparecessem suas obrigações ou esforços pessoais. Não é muito mais simples e eficiente estar paralisado a espera de que alguém nos acuda ou venha em socorro dos nossos anseios? Não se trata de negar a doença, mas perceber sua mais profunda raiz na dimensão psíquica e sociológica. É uma tarefa das mais ingratas nos posicionarmos diariamente, sendo que quando descobrimos um atalho, vale de tudo, até suportar um sofrimento alto para evitarmos novos constrangimentos, embora contraditoriamente a doença traga talvez o pior de todos. A medicina e psiquiatria ostensivamente negam tal núcleo, em função da massificação e banalização dos medicamentos. O conforto da pílula pelo menos deveria acompanhar uma frase ou palavra do médico com o intuito de resgatar a potência perdida do sujeito.

· Será realmente importante discutir determinados medos de insetos ou animais?(baratas, ratos, cobras, como exemplos); não seriam estes um disfarce para encobrir questões mais amplas e difíceis para a personalidade? Sem nenhuma sombra de dúvida; embora tais medos citados remontem aos primórdios do ser humano quando ainda vivia em cavernas, e estava sujeito a ataques dos mais variados animais ou insetos, se tornando componentes atávicos ou até mesmo genéticos. Nos dias atuais tais fobias relacionadas dizem muito mais da fuga dos verdadeiros problemas do sujeito como foi citado, do que qualquer outra coisa. O que estou tentando dizer como centro deste texto é que a fobia não passa de uma denúncia ou instrumento que a pessoa utiliza para expor seu sofrimento de forma disfarçada, por vergonha ou temor de passar a mensagem direta. A fobia é a timidez de revelar a infelicidade de forma real e prática, o desgosto profundo de uma alma que sente que não têm apoio e consideração em relação ao meio.

· Medo da crítica; falar em público; comer (anorexia nervosa e bulimia); perder o emprego ou insegurança econômica. Todos eles são os reais medos sem nenhum atalho ou maquiagem. Notem que se observarmos atentamente, além do temor a crítica citada possuem a mesma base central; o lidar com a autoridade. Pensemos na insegurança de perder o emprego. O que aconteceu com essa pessoa no passado? Teve conflitos de trabalho ou com determinadas regras, temendo a repetição? Por que não poderia colocar suas habilidades em outro lugar? O receio da idade ou do preconceito do sistema vigente? Não é a mesma coisa da obsessão por um corpo perfeito, que dará a ilusão de ser apreciada ou desejada continuadamente; fugindo do mais terrível pesadelo que é a rejeição? O medo de falar não é a mesma coisa? Como estruturamos nossa relação com a autoridade seja real ou simbólica (um valor conferido pelo sistema), dará a dimensão de todo o nosso caráter: submisso ou passivo; desafiador; cooperativo, e por fim retraído. O ser humano procura obviamente sempre um patamar de segurança e estabilidade, detestando mudanças bruscas que o obriguem a nova labuta pelo recomeço do que julga serem suas necessidades. Mas então neste ponto não poderíamos falar tanto sobre o medo como centro da questão, e sim de como todos de tornam acomodados e indolentes para novos desafios. Descobrir que tipo de autoridade está internalizada no inconsciente da pessoa e de que forma sempre reagirá perante a mesma é tarefa profilática que o psicólogo deverá exercer.

· Ninguém pode contestar que a opinião alheia é quase que um deus absoluto em nossa era, e que milhões de pessoas permutam suas mais profundas convicções e talentos pessoais para se evadirem da crítica e agressividade do meio. Restam apenas alguns tipos que se tornaram até “excêntricos”, por não temerem a estrutura social. A própria psicologia durante décadas reforçou a terrível mentira de que o ideal da pessoa era estar bem com ela mesma; se esquecendo de que diariamente todos os esforços são para chamar a atenção de alguém para uma personalidade totalmente carente. A carência além de também ser temida, traz à tona sua irmã gêmea que é sem dúvida o maior medo de todos: a solidão.

· Qual o grau de solidão que sentiu no decorrer da vida e como lidou com o mesmo? A solidão além de nos mostrar de forma imediata à privação de nossas necessidades, agrega também o elemento da inveja, pois começamos a pensar que apenas nosso ser não conseguiu comungar daquilo que é vital ou prazeroso. Há uma base histórica familiar que originou tão dolorosa sensação de desamparo, devendo o psicólogo a refazer, sob o risco da pessoa nunca sentir confiança em seu íntimo. A gênese da solidão além da falta ou carência é um sentimento absoluto de derrota, fazendo com que a pessoa desesperadamente tente mostrar algo de si que seja valioso, para não ser riscada em absoluto do mapa das relações sociais. Tal esforço infelizmente acaba sendo em vão, pois sua sensação de inferioridade não permite que cative as pessoas ao seu redor. Pensemos nos atuais “ORKUTS”, “*”SITES DE NAMORO” e coisas do gênero. O sistema social além de criar toda a solidão consegue uma forma de lucrar com a mesma”. Em nossa era a expressão: “antes só do que mal acompanhado”, é pura escusa ou racionalização; os instrumentos virtuais de busca de parceiros citados provam o grau enorme de miserabilidade afetiva e social; num quadro destes é muito difícil discriminar quando a solidão seria até saudável para se fazer uma reflexão pessoal, sendo que a sensação de perda do potencial é muito mais forte, pela ausência de testemunhas sobre seu valor próprio; coisa que a solidão provoca.

· Como ficam os transtornos obsessivos-compulsivos(tocs)? Geralmente o tipo de transtorno e incidência remete a uma personalidade que passou por grave crise pessoal e tenta se recuperar. A obsessão está ligada diretamente a uma espécie de pensamento mágico ou superstição, numa forma simbólica de ritual ou proteção contra a repetição do evento traumático. O problema é que tal proteção acaba custando caríssima, pois produz uma constante escravização sobre imagens ou comportamentos cotidianos e rotineiros que absorvem a energia do sujeito. A tarefa do psicólogo é sistematizar minuciosamente o tipo de ato obsessivo e fazer junto ao paciente o levantamento em que situações o mesmo ocorre e sua significação. A pessoa deve perceber que o medo não deixa de ser um ato solitário; sua raiz e potência se reforçam no anonimato. O medo teme compartilhar sua essência, assim como o status ou dinheiro, segue a estrutura social vigente de egoísmo e apenas pensar e trabalhar por si mesmo. O medo sempre lembrará ao sujeito de que o mesmo é infeliz e não terá chance de superação de seu dilema, impossibilitando a catarse pessoal para uma vida plena. Uma terapia bem sucedida é a que despertou um mínimo de motivação e felicidade no paciente. Enfim, a grande arma do medo é a associação com a solidão, para não apenas isolar o indivíduo, mas, também subtrair seus recursos. Inteligência é a capacidade de pedir e agregar ajuda ao seu redor, sendo que ninguém necessitaria de status ou fama para tal finalidade. Se a história da psicologia provou que não temos nenhum poder sobre os processos inconscientes; que pelo menos possamos efetivar a potência da reação; isto representa a coletividade psíquica da humanidade. A caixa preta do sofrimento só será aberta quando traçarmos um caminho paralelo de criatividade e constante sabedoria perante nossos dilemas não resolvidos.

Antônio Carlos Alves de Araújo – Psicólogo

· BIBLIOGRAFIA:

ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.